Um estudo
realizado na Faculdade de Medicina da USP concluiu que o tratamento
homeopático pode ser eficaz a médio e longo prazo no combate à rinite
alérgica.
Na primeira fase da pesquisa, 41 pacientes foram
separados em dois grupos. Parte recebeu medicamentos homeopáticos
individualizados e parte tomou placebo. Transcorridos seis meses, a
melhora nos sintomas e sinais da rinite foi semelhante entre as pessoas
de ambos os grupos -de cerca de 25%.
Até então, nem o médico
nem os participantes sabiam a que grupo cada um pertencia. Após esse
período, esses dados foram revelados, e os pacientes, reunidos.
Na
segunda fase, aqueles que haviam recebido placebo foram tratados com
homeopatia por 12 meses, e os demais, pela metade do tempo. Dessa
forma, todos os participantes receberam a substância ativa durante o
mesmo intervalo de tempo.
Ao final dos doze meses, metade
apresentou melhora nos sintomas e sinais da rinite alérgica. No segundo
ano de tratamento, essa taxa aumentou para 64%, alcançando 72% ao final
dos três anos de pesquisa.
Os sinais da doença foram
verificados e tabelados por um imunologista independente, não
homeopata, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
De acordo
com o médico homeopata Marcus Zulian Teixeira, que fez o estudo para
sua tese de doutorado, foi preciso realizar um acompanhamento de longo
prazo porque uma característica do tratamento homeopático é a demora
para acertar o remédio mais indicado para cada paciente.
"Existem
centenas de remédios homeopáticos que podem ser usados para tratar a
rinite. É necessário um tempo grande para testar todas as
possibilidades", afirma. Segundo ele, os estudos clássicos têm duração
de um ou dois meses, o que não é eficaz para a homeopatia.
Falha da pesquisa
Embora
os resultados apontem uma diferença estatisticamente significativa
entre a melhora do mesmo paciente nos 12 meses de tratamento com
homeopatia em relação aos seis meses iniciais, o próprio autor aponta a
desistência da maior parte das pessoas como uma falha do estudo. Dos 41
participantes, só 13 foram até o fim.
No entanto, segundo ele, cerca de 80% dos que desistiram atribuíram o fato ao alívio dos sintomas da rinite.
"A
limitação da pesquisa é o pequeno número de pacientes devido à
desistência que há em qualquer tratamento de longo prazo. Para
compensar, fizemos uma análise qualitativa para saber como foi a
melhora dos pacientes", afirma.
Os pacientes que apresentaram 100% de melhora ficaram em média três anos sem nenhum sintoma de rinite após o fim do tratamento.
De
acordo com Richard Voegels, membro da diretoria da Associação
Brasileira de Otorrinolaringologia e diretor de rinologia do Hospital
das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, somente as conclusões da
primeira fase do trabalho, quando não se sabia quais pacientes estavam
recebendo placebo ou medicamentos, podem ser consideradas.
"Se
o estudo continuasse controlado, quem garante que o grupo placebo
também não teria melhora de 70%?", afirma o médico. Segundo ele, o
componente psicológico também é importante no caso da rinite. "Se a
pessoa acredita que vai melhorar, isso acontece."
Na opinião
do otorrinolaringologista da Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo) Onivaldo Cervantes, pode-se concluir que a homeopatia tem um
efeito positivo no combate à rinite, mas é preciso considerar os vieses
da pesquisa.
"Essas pessoas podem ter passado a se cuidar
melhor, podem ter se afastado dos alérgenos. Durante o tratamento, o
paciente presta mais atenção ao problema e também acredita que vai
melhorar", diz.
A rinite é caracterizada por uma inflamação do
nariz e pode ser infecciosa (resfriado), irritativa (poluição, fumo) ou
alérgica (reação exagerada a determinados alérgenos). Os sintomas são
congestão e obstrução nasal, coceira e espirros.